MARIA-CARMEN PERLINGEIRO TEXTOS

Para o artista, a descoberta de sua matéria equivale à descoberta da textura do mundo. Só a partir daí ele pode transfigurá-lo. E, muito mais do que adequá-lo à sua medida, o que seria ainda um problema de cálculo e proporção, ele de fato o assimila, passa a acompanhá-lo em seu curso imprevisível, com suas dobras e suas curvas. A matéria agora mágica garante assim um registro autêntico e singular ao aparecimento estético do mundo.

Com toda certeza, foi o que ocorreu com o alabastro no processo de trabalho de Maria-Carmen Perlingeiro. De pronto ele revela a ética de sua linguagem no contexto público da arte contemporânea: a de uma adesão convicta aos valores modernos sem contudo acentos transgressivos ou revolucionários, em diálogo aberto com a tradição, guardando inclusive contato - um tanto purista, um tanto irônico - com a noção clássica de belo.

Porque o alabastro se apresenta sempre, e quase fatalmente, sob o signo da ambigüidade. Ele exibe não apenas uma beleza dúbia, no limite do kitsch, entre a nobreza histórica da estatuária e o decorativismo ostensivo, como uma consistência física incerta: pedra frágil e dúctil, a caminho de dissolver-se em luz. Eis aí uma geologia de superfície, sugestiva por vocação,incapaz de guardar segredos. O que vem a torná-la particularmente apta a traduzir a topologia do nosso conturbado dia-a-dia, sempre a misturar as fronteiras entre sujeito e objeto, interioridade e exterioridade.

Graças exatamente à conquista de um completo domínio artesanal, a artista vai adotando uma atitude mais e mais distanciada frente ao alabastro, explorando-o muitas vezes a contrapelo. É um tratamento contemporâneo que, com tranqüila sabedoria, associa a lógica minimalista de elementos discretos a uma morfologia deliberadamente mimética. E que, ignorando hierarquias, consente desde uma releitura livre da Maestá de Duccio, do século XIV, releitura por assim dizer decomposicional, até divertidas alusões à linguagem corporal dos Piercings, sem que haja alterações significativas no tônus espiritual do trabalho. O seu humor poético permanece característico, a irradiar uma certa leveza, um certo frescor, um toque de ironia.

Espontânea, despretensiosamente um trabalho seriado, que individualiza e diferencia seus exemplares através de progressões ou divisões seriais - deixando para trás o conceito canônico de unidade formal - entrega-se inteiro a seus impulsos miméticos. E como a corrigir o aspecto enganoso do alabastro, esses impulsos miméticos são rápidos e diretos, produzem uma reação em cadeia. Cada uma das séries responde, nominalmente até, a determinada associação imaginária. Simples pedaços ou fragmentos de pedra, quase ready-mades, apenas modificados, podem se transformar assim em perfís de montanhas ou em detritos lunares. Uma calma voracidade mimética parece tomar conta da escultura de Maria-Carmen Perlingeiro. É um momento de abertura existencial, de investimento sensível sobre a prodigiosa diversidade do mundo-da-vida. Tudo merece uma segunda pele.

Ronaldo Brito, 2006