MARIA-CARMEN PERLINGEIRO TEXTOS

A arquitetura – a arte de modular o espaço a partir das exigências humanas – inscreve a perspectiva dos seres em movimento na realidade. Poderia ser chamada uma arquitetura da saúde, como a relação entre as duas verticalidades corpo e edifício se complica, já que a situação de equilíbrio natural se encontra ameaçada. Daí a necessidade significativa de criar ligações saudáveis entre a dureza, a grandeza inerte do edifício e a fragilidade de um ser fragilizado.

A arte de Maria-Carmen Perlingeiro soube aproximar esses dois pólos tão opostos oferecendo ao “público” deste lugar terapêutico um apoio estético, intelectual e moral. A obra, com seu eloquente título “Gotas de orvalho” centra-se em um contexto aquático. A água, símbolo universal de vida, compartilhada tanto pela arquitetura (a piscina) como pelo homem (o corpo composto quase exclusivamente de água) se materialisa, resiste, se mantem na parede numa forma que representa leveza por excelência: a gota. Esculpidas no alabastro – tão semelhante, no ambiente mineral, à carne humana – e tendo cada uma sua forma bem definida, as gotas se tornam um espelho para qualquer pessoa ali presente.

Mantendo ao mesmo tempo sua individualidade, essas gotas, reunidas como são na mesma parede, formam um conjunto harmonioso e vivo. A luz natural faz oscilar a escultura mural inteira, e faz scintilar a cura. A escultura de Maria-Carmen Perlingeiro, embora seja uma anticipação estética de uma dinâmica corporal reencontrada, também sabe respeitar a dor do ser sofredor e suas gotas-lágrimas. O intervalo – às vezes tão longo – no qual é preso o corpo sedento de ação também acha a sua expressão nas gotas como metáforas de uma forma temporal suspensa entre o estável e o instável, de plenitude de um momento especial. “Gotas de orvalho” incita o homem a se conscientizar de sua temporalidade: a vida em si não deseja “segurar” o espaço desse momento alegre onde todos os seres brilham de suas próprias forças? O trabalho de Maria-Carmen Perlingeiro se refere justamente à esse poder interno: ele “puxa” o ser humano de baixo para cima para que ele se coloque em movimento novamente.

Michael Jakob, 1999