MARIA-CARMEN PERLINGEIRO TEXTOS

Após um percurso de intenso confronto e diálogo com alguns dos grandes modernos; Brancusi, Arp, Sergio Camargo e toda a tradição imemorial do mármore é como se as esculturas recentes de Maria Carmem Perlingeiro nos confrontassem com um súbito e inesperado desencantamento. Trocar as radicais peripécias da forma moderna por esta insólita relação com tão prosaicas coisas do dia-a-dia pode sugerir mais uma das atitudes evasivas da atualidade – sugestão enganosa, contaminada.

Já a pedra havia mudado – antecipadamente -, do mármore para o alabastro. Muito especial o alabastro; pedra muito mais ambígua que o mármore, com um quê de quase artificial, indefinido. Nela uma curiosa dialética entre atualidade e eternidade se abriga. Pois nessa pedra ambígua começam a a surgir coisas muito bem definidas, sem qualquer ambiguidade. Coisas que, de tão precisas, poderiam pertencer a um catalogo onde as coisas devem aparecer justamente definidas. Coleção, álbum, são palavras que vem a mente para justificar tal seleção de coisas próximas e desinteressantes . E o que dizer da insignificância absolutamente não óbvia dessas coisas e escolhas? Não é a natureza-morta que nos falta?

Natureza-morta: uma garrafa e dois copos, algumas maçãs, uma faca, um peixe, um molho de aspargos, a toalha que recobre um tampo de mesa, exemplos apenas do que antes configurava um mundo pleno, completo, significativo. Pois no alabastro temos exemplos da existência solitária das coisas antes (ou depois) da convivência que se estabelece entre elas - o estado placentário, (pré ou pós?) naturezas-mortas. Estas esculturas combinam, na sua estrita formalização desencantada, o selvagem ambiente pós-pop, o humor dessacralizador das histórias em quadrinhos, a vulgarização consumista do cotidiano e a dignidade e simplicidade clássicas num pedaço de pedra; estela absolutamente contemporânea, monólito incompleto e definido no indefinido fragmento de alabastro. Um pedaço da “carne do mundo”, contrário atualíssimo da exterioridade delimitadora clássica grega. A escultura moderna de volta à gestação, definindo precisamente o limite das coisas dentro do informe do alabastro, transformando a forma em luz, a imagem em “raio x”, o corpo em “alma”. Por isso dois lados dessemelhantes, a dualidade da peça - o que está “entre parênteses” e o que está fora.

Paulo Venancio Filho, 2001