MARIA-CARMEN PERLINGEIRO TEXTOS

Todo ato de escultura precisa enfrentar uma contradição cujas consequências são de peso, ou seja: a contradição entre a gravidade extrema do material e a leveza do corpo humano, entre a dureza da pedra ou do bronze, e a fragilidade do ser a esculpir. Apesar da sua presença na escultura, o corpo humano corre o risco de ser reduzido à exteriorização de um simples contorno e de desaparecer para sempre na materialidade do objeto escultural.

O aspecto raro do material, seu brilho e sua textura contribuem também para o reforço da supremacia do objeto (liso, polido) sobre o que ele tenta – muitas vezes em vão – expor: um ser de carne e pele, uma matéria viva que seria perpétuamente traída na coisificação artística. A história da escultura foi marcada pela dialética entre o que está presente como matéria e o que é apresentado através do material, sem deixar de se questionar quanto à emergência do corpo, da pele, da vida.

A escultura que modela o corpo humano é “a abstração da forma”, como já indicava Hegel. Ao imaginar o corpo na epifania de sua grande beleza, ou em seu mais característico aspecto, a escultura, além disso, leva a abstração do tempo, para fazer esquecer, mais uma vez, o que prima no corpo: seu impulso vital.

A arte de Maria-Carmen Perlingeiro repensa os fundamentos da escultura e interroga a tradição de uma forma ao mesmo tempo delicada e forte. Seus objetos, na verdade, desvendam constantemente as aporias da convenção na escultura, privilegiando o fragmento e o detalhe. Eis que, por exemplo, graças à uma amplificação surpreendente, surge uma unha e se torna escultura. O que é uma unha senão o infinitamente pequeno, um resto que passa em geral desapercebido? Mas a unha é, assim como a lágrima esculpida no Suspiro de Maria-Carmen Perlingeiro, algo de único, absolutamente singular que resiste à generalização artística.

Suspensa entre o corpo ainda vivo, porém já destinada à morte, a unha marca a passagem do tempo, testemunha um momento único – mas nem por isso privilegiado. Suspensa entre o olho que lhe dá vida e sempre pronta a dele se destacar, a lágrima marca também a passagem para uma morte iminente. O Suspiro parece interrogar de maneira profunda esta passagem: a cristalização do que é vivo no que é morto, a concretização da forma no que é, por sua natureza, imperfeito, singular, manchado, marcado pelo trabalho do tempo. Além disso, o Suspiro e a unha levantam a questão fundamental da expressão. Expressão humana que se materializa nos signos do que foi vivido, tal uma unha deixando o corpo, tal uma lágrima deixando o olho de alguém, “morrendo” para transmitir alguma coisa a outrem. Expressão artística que, por sua vez, se inscreve no espaço entre a vida e a morte, para dar vida à pedra inanimada.

Para chegar nesta arte do que é vivo, para guardar a fragilidade do que é vivo, Maria-Carmen Perlingeiro soube escolher o mineral ideal: o alabastro. Esta pedra possui uma translucidez surpreendente e uma dureza relativa; sua transparência e suas camadas ondulantes deixam aparecer a profundidade – tudo nela parece sugerir a matéria viva sob a epiderme. Ao explorar a irregularidade das veias do alabastro, a artista imprime sua visão numa matéria tão única quanto a forma de uma unha ou de uma lágrima.

Graças a profundidade e à singularidade das diferentes camadas e à “pele” translúcida do alabastro, a artista realiza peças tais como a ombreira ou a pétala de rosa. Através deste último objeto, Maria-Carmen Perlingeiro alcança a expressão mais incisiva de uma arte que quer concretizar (endurecer) o que em si é frágil, e fragilizar (tornar leve) o que em si é duro. Confrontamo-nos, mais uma vez, com um fragmento, um nada que se torna escultura, com algo de efêmero e único, com algo de infinitamente fino, leve e quase impalpável, que no entanto guarda sua fibra, sua seiva. Símbolo da fragilidade de Eros e da Beleza, a rosa reduzida metonímicamente a uma só pétala, ampliada na escultura, revela uma visão artística que tenta manter no brilho do efêmero a memória do momento vivido e a singularidade de todo ser.

Michael Jakob, 1996