MARIA-CARMEN PERLINGEIRO TEXTOS

Entre o Monte Cervino, as colinas da Toscana e os morros cariocas, Maria-Carmen Perlingeiro vem construindo sua ‘poética da pedra’. A artista brasileira, radicada em Genebra, na Suíça, expõe sua mais recente produção – torsos e poliedros de alabastro, peles de animais, gelos de selenita, micas de cristais amarradas em placas de acrílico – trabalhos de caráter artesanal, de envolvimento espacial instigante, alcançado por meio da transparência das pedras esculpidas e perfuradas, numa diluição provocada pela luz. A artista vem explorando a sensibilidade do alabastro através de releituras singulares deste material. O alabastro translúcido da Toscana permite a criação de uma aura de luz em “um instante mágico” que se faz aparecer entre o campo espacial luminoso e a escultura de fragmentos. Assim, surgem morros cariocas, torsos, memórias de infância e lembranças, gravadas em folhas de ouro. Tudo é criado para explorar o limite do olhar.

A partir de 1983, Carmen começou a esculpir o mármore e, desde então, as pedras têm sido seu material preferido. O Rio de Janeiro tem forte presença nas esculturas e em sua escala de sedução: sua singular lei estética rege o virtuosismo com enorme frescor, e humor. O alabastro, pedra translúcida, mas que também pode ser opaca ao mesmo tempo, de beleza inigualável, chega a atingir uma superficialidade ostensiva de matéria dócil e sedutora nas mãos da artista. A pedra, para ela, se presta a um exercício estético, com acento íntimo e afetivo de fina ironia.

Encontrando na Toscana o suporte ideal para sua escultura, ela segue a tradição renascentista, ou seja, sai em busca dos seus blocos de alabastro em seu atelier a céu aberto de Volterra. Ali, escolhe e corta suas pedras em fatias e blocos. Sempre que chega a Genebra, leva a reboque 700 quilos de pedras que irão receber a dedicação de suas mãos, do cinzel e do buril, e das máquinas. Assim, ela se dedica ao trabalho diário e metódico em seu exercício estético e vai concretizar suas descobertas poéticas na fragilidade do alabastro, incorporado-o à luz, conjugando opacidade e transparências. Maria-Carmen costuma viajar pelo menos uma vez, ao ano a Volterra, na Itália, para escolher as pedras brutas do mineral ideal: aquele que possui uma translucidez e uma dureza relativa para explorar seus veios e fornecer uma riqueza visual e tátil. Mais recentemente, encantou-se com as selenitas e as micas de cristais e suas criações sempre exploram a sensibilidade das pedras entre o campo espacial e o campo luminoso. A exposição apresenta Torsos, de alabastro, A bela e a fera – de alabastro e peles de cabra montanhesa naturalmente preta e branca – e os Hot ice, Cones e Cubos, e Micas. As recentes criações em grandes blocos de selenita, pedra mexicana volumosa, mas igualmente translúcida, semelhantes ao gelo, recebem perfurações transversais e gravações em ouro, provocando um olhar vertiginoso entre o cheio e o vazio, o de dentro e o de fora. Assim, a selenita como elemento terra, de aparência vítrea, envolve volume e seu brilho diáfano cria uma conexão com uma energia de forma arquitetônica, assim como, suas formas onduladas e sua transparência agregam o caráter dos corpos fluidos de qualidade límpida. Na série Hot Ice, a artista fura e grava em ouro em uma alquimia de sintonia intuitiva. Ali, circula-se o centro luminoso como que atravessando o infinito. As peças materializam o vazio, e a luz perpassa a solidez da selenita como um Menir, monólito pré-histórico, que incorpora a escala monumental não pelo tamanho, mas pela sua translucidez, quando a peça se agiganta em uma efêmera experiência de tempo-espaço. Em um jogo quase sensual , os dois Torsos crus e nus, talhados com extrema força e leveza, remetem à tradição da escultura e tornam-se atemporais.

As Micas, por sua vez, trazem a real dinâmica da velocidade da luz, e são incorporadas ao repertório da artista, que se apropriou dos cristais fatiados em planos sucessivamente paralelos. De aparência também brilhosa, as criações em mica irradiam muita luminosidade, quando em escala pequena. Estas fatias amarradas nas placas de acrílico se dinamizam em jogos geométricos sem lógica matemática como as construções ambivalentes de Joseph Albers, pois Maria-Carmen introduziu nas placas de acrílicos shapes de luz triangulares como fachos luminosos.

Como parte da exposição, temos ainda os Solados, estruturas que lembram pés descalços subindo os paredões crus de cimento do museu, tentando galgar o impossível!

Maria-Carmen Perlingeiro, essencialmente escultora, percebe o mundo dos volumes tridimensionais esculpidos pela luz natural e integra sua poética em uma experiência visual e tátil, imprimindo referências sutis em ritmo de pura beleza.

Cristina Burlamaqui, 2003