MARIA-CARMEN PERLINGEIRO TEXTOS

A exposição REFERÊNCIAS FOTOGRAFICAS pretende reavivar o debate fotografia/arte sob o enfoque do olhar artístico de quatro artistas contemporâneos brasileiros que atuam na pintura, escultura, instalações e interferências paisagísticas e urbanas como meio de expressão plástica. São eles: Gabriela Machado (pintura), José Tannuri (instalações e interferências urbanas), Maria-Carmen Perlingeiro (esculturas e interferências paisagísticas) e Ricardo Becker (pintura, escultura, instalações e interferências urbanas e arquitetônicas).

Com uma mostra de fotografia de artistas que vêm se expressando em várias áreas das artes, a GALERIA IPANEMA inicia as comemorações de seus 40 anos de existência, com um intento de lançar luz sobre um novo caminho, o adotado por estes artistas, os quais, com seu “olhar fotográfico”, revelam extraordinária potência plástica. Os artistas escolhidos para esta mostra vêm desenvolvendo reconhecido trabalho para a Arte Contemporânea no Brasil, com participações importantes em exposições nacionais e internacionais – como Maria-Carmen Perlingeiro, primeiro lugar no Concurso Internacional Uni Dufour, do Banco Darier-Hentsch e do Estado de Genebra em 1996.

Com a participação de Gabriela Machado, José Tannuri, Ricardo Becker – fotografias inéditas – e Maria-Carmen Perlingeiro – expondo fotos apresentadas em 1980 no Rio de Janeiro e a Genebra, mas refeitas com nova tecnologia em 2005 –, pretende-se colocar em discussão o modo como cada um deles reflete sobre a questão da referência fotográfica na arte. É o olhar do artista, no exercício da observação, e o fazer arte por meio da fotografia.

As imagens fotográficas são, ás vezes, fragmentos da realidade, advêm da experiência que é captada por uma câmera, criando uma magia, apesar das diversas interpretações que cada olhar pode alcançar. Existe a consciência da arte de fotografar, assim como uma enorme discussão das premissas da fotografia enquanto arte. Os artistas escolhidos para esta mostra exibem sua expressiva presença na arte brasileira, hoje, por meio de seus pensamentos pictóricos, experiência na leveza das esculturas e na reflexão de suas instalações e, certamente, poderão ampliar as referidas premissas através de seus pensamentos fotográficos.

O que se procura, aqui, é fazer uma reflexão sobre a “unidade na diversidade” de suas linguagens pessoais, carregadas de energia e estranheza na captura de “uma realidade marginal desvelando uma verdade oculta”, como afirma Susan Sontag em seu ensaio Sobre a fotografia.

Aqui, os criadores vão explorar o estático e o movimento, e a composição da imagem vai deixar de ser um simples registro para revelar as múltiplas verdades de suas poéticas. É a ciência a serviço da arte. Alguns historiadores especulam que Vermeer tenha se valido da câmera escura para obter precisão em suas memoráveis cenas pictóricas. Também Velásquez lançou mão da óptica, em suas pinturas palacianas. E vale lembrar os subsídios visuais aos quais recorreram, brilhantemente, tanto Picasso quanto Braque. É exatamente neste ponto de confluência que a exposição REFERENCIAS FOTOGRAFICAS pretende realizar uma experiência autônoma, para anunciar, quem sabe, sem pretensões exageradas, claro, nova possibilidades para a arte, hoje, como “magia do real”.

As fotos de ambientes externos de Maria-Carmen Perlingeiro e de José Tannuri, assim como as fotos íntimas e intimistas de Gabriela Machado e Ricardo Becker, nos despertam para esta reflexão. Na seqüência de auto-retratos de Ricardo Becker, por exemplo, o tempo que envolve seu movimento de maneira subjetiva não caracteriza a fotografia propriamente dita, pois a evidência do tempo aparece de modo direto na superfície e capta o momento decisivo. Em Gabriela Machado, ao contrário, existe um pensamento atualizando o passado (Velásquez) de sombras, e um fluido abstrato de luz – que é quase uma composição pictórica e faz a passagem para o abstracionismo de sua pintura posterior. No entanto, os momentos captados nos anos 1980 pela escultora Maria-Carmen Perlingeiro exploram as sombras, os ventos, as palmeiras e o efeito do jogo de palavras, exaltando a presença majestosa do Pão de Açúcar como uma memorabilia da cidade do Rio de Janeiro. Enquanto Tannuri se reaproxima da realidade cotidiana nas tensões das linhas, das estruturas das grades divisórias, nas quais a própria percepção de realidade se realiza no mundo que está “dentro” e no mundo de “fora”, além dos limites da fronteira.

O que queremos mostrar é o fascínio que a fotografia exerce ao manter o caráter de mistério, revelando estes artistas como “alquimistas da arte”.

A artista Maria-Carmen Perlingeiro, conhecida e reconhecida escultora da leveza do alabastro, comparece com fotos de 1980, já anteriormente apresentadas no Rio de Janeiro e em Genebra – refeitas em 2005, com nova tecnologia. As fotografias, todas na praia do Flamengo, em 1980, privilegiam o Pão de Açúcar, palmeiras e ônibus, num exercício, segundo suas palavras, “do olhar que só o artista tem...que não fica colado na realidade”. Aqui, o Pão de Açúcar não é cartão-postal. É arte. Em Vol Bol / Col Sol vê-se a montanha-símbolo do Rio de Janeiro, rebatida em azuis, magentas e pretos, “num duplo” com as palmeiras, emblema dos trópicos, e palavras em relevo, nas quais, para Maria-Carmen, “os iguais sempre se encontram” como numa questão gramatical.

Em Advérbios de Lugar, ela brinca com as palavras e as imagens, mostrando uma seqüência de quatro fotos iguais, quatro momentos do Pão de Açúcar e um ônibus amarelo. Na verdade, é uma mesma foto que se repete, sugerindo a leitura da palavra, num misto de imagem versus texto, de repetição, num jogo com advérbios de lugar.

Nos admiráveis Callistemon Rigidus existe uma relação visual entre a flor e a escova vermelha de limpar garafas. São imagens que aproximam os dois objetos, numa irônica brincadeira de palavras compostas: tic-tac, pik-pok.

Os Superlativos compõem uma série de fotos que tentam jogar com o Pão de Açúcar – velado ou escondido por palmeiras – enquanto ícone. Seria o Pão de Açúcar a nossa Marilyn? Warhol acrescentou meios-tons nas fotos para criar, no rosto da atriz, muitas faces com diferentes contrastes. Perlingeiro reflete sobre os “íssimos” da gramática ao fotografar insistentemente o Pão de Açúcar atrás das folhas de uma palmeira que, ao sabor do vento, desvendam ou vedam a visão completa do mesmo – procura-se a montanha e não se consegue vê-la. Tal seqüência de imagens sugere uma mobilidade quase cinética. A artista captura a imagem, reparando o momento exato em que as coisas estariam se mostrando.

Maria Cristina Burlamaqui, 2005