MARIA-CARMEN PERLINGEIRO TEXTOS

Pelo simples título de sua exposição, Luz de Pedra, Maria-Carmen Perlingeiro afirma que, a seu ver, esculpir não é apenas criar um objeto tridimensional, carregado de sentido e beleza, mas igualmente uma irradiação que se desprende desse objeto, ou de sua multiplicação, e que altera a luz do espaço ambiente. Que o arranca daquilo que esperávamos ver. Dessa forma, em pleno século XXI, a artista segue a linha e renova os primeiros traços das esculturas, das montagens em três dimensões que chegaram até nós, como o crânio de urso disposto na Gruta de Chauvet sobre blocos de pedras, dos quais se eleva um plano horizontal, uma base em que ele se destaca, adquirindo o valor de uma peça religiosa.

A mesma preocupação com a continuidade das origens se revela na escolha dos alabastros, esculpidos desde o neolítico, mas que Maria-Carmen Perlingeiro sabe iluminar por meio de gravações em ouro. Aos quais ela acrescenta a selenita e seus cristais transparentes. É num duplo diálogo com o espaço que ela nos introduz: no das esculturas propriamente dito, com o brilho de suas formas e a surpresa das incrustações; mas também naquele que ela compõe ao relacionar as peças entre si, ou ao multiplicá-las, a fim de criar um campo de visão renovado, feito para surpreender nosso olhar. De fato, essa multiplicação perturba a ordem que esperávamos para dar entrada ao imprevisto de uma desordem luminosa que transforma o campo visual.

A artista acrescenta, como já disse, o que lhe é próprio, o sentido de suas gravações em ouro ou de suas perfurações no mármore, estabelecendo novos diálogos inesperados com a luz.

Continuidade no trabalho do alabastro, surpresas na combinação de matérias, a arte de Maria-Carmen Perlingeiro, por essas associações, pelos contrastes e pelas multiplicações das formas em jogo com a luz, revigora nossa visão.

Pierre Daix, 2013

Tradução: Rafaela Vincensini, Paris

Pierre Daix, nascido em 1922, é um romancista, ensaísta e historiador de arte francês. Fez parte da Resistência durante a Segunda Guerra Mundial, e por isso foi preso no campo de concentração de Mauthausen. Militante comunista desde jovem, está ativamente implicado na imprensa envolvida. Ele dirige em particular o jornal comunista Ce soir e se torna editor do jornal literário Les Lettres françaises sob a direção de Louis Aragon, de 1948 a 1972, apresentando ao público francês escritores como Milan Kundera e Alexander Solzhenitsyn. Amigo do Pablo Picasso, Pierre Daix escreveu muitos livros sobre o pintor, e pintura em geral.