MARIA-CARMEN PERLINGEIRO TEXTOS

Texto de apresentação da exposição Luz de pedra,
no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro


A exposição de Maria-Carmen Perlingeiro no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro apresenta obras inéditas e retrospectivas, oferecendo um panorama ao mesmo tempo denso e preciso do trabalho prolífico desenvolvido há vários anos pela artista na área da escultura. Com uma coerência constante e um rigor absoluto, a artista brasileira, nascida em 1952, pratica intuitiva e metodicamente seu ofício em Genebra há mais de vinte anos. A exposição LUZ DE PEDRA se desdobra hoje como um caminho trilhado entre os pensamentos e as pesquisas da artista, como uma coleção íntima generosamente compartilhada.

A mostra se inicia com uma série de baixos-relevos em forma de « palmilha », convidando o público a deslocar-se mentalmente, dentro e para além da exposição. Alternadamente, entre a concentração e a dispersão, a exposição permite ao olhar efetuar idas e vindas entre uma observação atenta das obras minuciosamente trabalhadas e a percepção de um vasto universo a ser explorado. Da opacidade à transparência, em graus e camadas sucessivas, dá a descobrir um mundo surpreendente, por vezes silencioso e tranqüilizador, uma poética da essência.

Favorecendo a circulação fluida dos visitantes, um conjunto de painéis suspensos, semi-transparentes, propõe linhas oblíquas dinâmicas e visões prismáticas incessantemente renovadas. As diferentes séries de obras apresentadas são valorizadas pela luz natural que as atravessa e pelo espaço bruto do museu, que as cerca. A artista privilegia materiais naturais como o alabastro, a selenita ou ainda o ouro, de uma resplandecente beleza, e gestos dominados, de uma rara e pura elegância. Certas obras nos remetem às origens e aos mundos subterrâneos, parecendo dificilmente datáveis. A escolha de materiais brutos e preciosos, e a opção por certas formas genéricas e arquetípicas acompanham e sustentam esse duplo desejo de, por um lado, inscrever o surgimento da arte e o nascimento das formas na duração, e, por outro lado, situá-las fora do tempo, tendendo ao « horizonte » do absoluto.

Maria-Carmen Perlingeiro enfrenta o particular desafio de conjugar uma habilidade notável com uma coerência substancial, uma densidade material com uma tenuidade sugestiva, uma volúpia afirmada com uma cumplicidade manifesta. À primeira vista, o território de Maria-Carmen Perlingeiro parece apreensível de um único olhar. Mais de perto, contudo, vários desvios e fissuras são revelados, dando-nos a perceber, sob diversos aspectos, – como, por sinal, sugerido pelo título da exposição – a dimensão plural e equívoca de seu trabalho. Cada obra pode surgir, brilhar e reluzir, subtrair-se novamente e, progressivamente, iluminar-nos um pouco. Entre minimalismo formal e sugestões figurativas, plenitude e abertura, brutalidade e preciosidade, fração e união, claro e obscuro, as obras se apresentam às vezes como verdadeiros oximoros visuais. Antes de mais nada, convidam-nos a viajar ao âmago das comunhões visuais e semânticas criadas pela artista, que logra, ao mesmo tempo, fazer-nos sorrir, pensar e sonhar.

No seu trabalho em geral e nesta exposição em particular, Maria-Carmen Perlingeiro opta por uma escala humana que não somente possibilita à artista fundir-se com a matéria que manipula, mas evoca igualmente uma proximidade e uma familiaridade segura com as obras. Na maior parte realizadas em pequeno formato, entre distância e proximidade, elas parecem, em suma, aflorar o que ao mesmo tempo nos excede infinitamente e nos exalta intensamente.

Lionnel Gras, 2003

Lionnel Gras (1984) é historiadora da arte, crítica e curadora. Trabalha atualmente na Escola Superior de Arte e de Design (Haute école d’art et de design - HEAD) e no Fundo Municipal de Arte Contemporânea (Fonds municipal d’art contemporain - FMAC) de Genebra.