MARIA-CARMEN PERLINGEIRO TEXTOS

De um modo consciente, a escultura de Maria Carmen Perlingeiro assume uma sensibilidade e um raciocínio morfológicos. No império do digital e do serial, a opção por um embate frontal com certa matéria - e o tradicional mármore de Carrara, ainda por cima - parece talvez anacrônica. E, no entanto, o desafio seria exatamente chegar à eventual potência contemporânea da forma. O fato mesmo de voltar ao artesanato, depois de passar pelo experimentalismo dos anos 70, é esclarecedor: assinala a postura, em meio à diluição generalizada, de retomar contato com os fundamentos modernos. Repondo e repensando as suas articulações decisivas, o trabalho procura responder à questão crucial - a indagação sobre a possibilidade, a realidade e a necessidade da forma moderna no momento de sua crise.

Será portanto mais do que gratificante - revitalizante, na acepção enfática do termo - a coincidência, em suas peças mais felizes, entre o tour-de-force artesanal e a revelação intelectual da forma. Ao contrário das novidades, mais e mais suspeitas, a escultura de Maria Carmen Perlingeiro começa por metabolizar as suas referências históricas para surgir como um todo plástico coerente e surpreendente. A capacidade de descoberta permanece imprescindível para a lógica prospectiva do projeto moderno: cada peça deve descobrir uma verdade acerca da obra que, sem ela, ficaria por assim dizer incompleta.

Evidentemente, estamos ainda em meio ao processo de investigação e reflexão sobre as múltiplas aventuras da forma liberta moderna. Arp, Brancusi, o brasileiro Sergio Camargo, entre outros, impregnam essas esculturas que, buscando uma identidade específica, com frequência extraem da clareza insigne do mármore justamente uma coisa obscura . Entre a economia elegante e a atração ‘inexplicável‘ pelo tortuoso, elas exibem um imaginário corpóreo. A medida em que conquistam uma presença plástica substantiva, afirmam também a sua natureza enigmática. E o enigma do ‘saber‘ do corpo tem certamente algo a dizer a esse cotidiano contemporâneo brutal e opaco que, em nome mesmo do materialismo, parece ignorar a dimensão do corpóreo.

Essa espécie de metáfora corpórea deriva assim, curiosamente, do exercício de uma disciplina estética próxima à tradição construtiva. Os movimentos da mão tendem a repetir compulsivamente fixações e obsessões inconscientes. A pressão da lógica estrutural, por sua vez, prescreve articulações lúcidas e precisas, proíbe vícios e caprichos de linguagem. Ao que tudo indica, o trabalho de Maria Carmen Perlingeiro dispõe-se agora a recuperar algumas afinidades expressivas de seu passado até certo ponto exorcizado. Acha-se capaz de reconhecer e recolher certas constantes . Repassando a gramática moderna, a artista não mimetizava simplesmente esta ou aquela obra. Como vimos, a sua sintaxe evolui às custas de um equilíbrio arriscado entre o orgânico e o estrutural. Mas a ânsia inevitável pela ‘solução‘ de cada uma das peças individuais deixava em suspenso a interrogação sobre o destino da obra. Os problemas artesanais, como sempre, interpunham-se entre a realidade imediata do trabalho e a disponibilidade para refletir sobre o seu vir-a-ser. Por isto, o valor sintomático das constantes. Rejeitadas por insuficiência formal, retornam agora para cobrar o preço de sua verdade expressiva.

Após a recusa de uma linguagem plástica independente do seu fazer, a escultura de Maria Carmen Perlingeiro vai progressivamente tomando distância em relação a esse fazer - justo para torná-lo mais presente. A contradição é apenas aparente. Em parte, aliás, essa distância resulta do próprio domínio artesanal. O importante é que o fazer deixa de ser uma questão prévia, separada da lógica construtiva e do núcleo expressivo do trabalho, para transformar-se em uma de suas instâncias constitutivas. Seria viável pois concluir que a exigência do rigor de formalização aplica-se aqui exatamente a ‘figuras‘ estranhas e inquietantes. O impacto estético da escultura de Maria Carmen Perlingeiro é da ordem paradoxal de sínteses plásticas metafóricas. Impõe-se uma discursividade sucinta, abrupta, sob pena de redundância: a sua pronta exibição enquanto enigma é o que sustenta essas peças no registro do Atual, sem regredir ao sugestivo e ao virtual. Não se trata de narrar um dilema e sim de mostrá-lo.

Ronaldo Brito, 1991