MARIA-CARMEN PERLINGEIRO TEXTOS

Seria tão insensato afirmar que essas esculturas em pedra buscam incorporar a dimensão do tempo? Que aquilo que são não é para todo o sempre. Que permanecendo o que são falam daquilo que não permanece. Pequenas mentiras que fingem ser, e não são. Não é esta afinal a ambiguidade do alabastro, uma pedra bastante falsa – falsa a ponto de às vezes parecer artificial?

Por que nele, alabastro, parece que falta antes de tudo a pedra. O alabastro é uma pedra que parece mentir sobra a pedra. Me pergunto se o título de algumas esculturas e também do texto de uma exposição recente, respectivamente White lies e Petits mensonges (1) não insinua algo dessa natureza. Pois no alabastro parece existir algo de perecível, quase próximo da vida, que talvez já foi vida e pode tornar a ser. Algo que foi esquecido e pode ser relembrado. Porque nele as coisas não estão tão imobilizadas como na pedra permanentemente. Ainda que turvo, fosco, fora de foco, o alabastro desvela um interior, como é próprio de alguns organismos indefesos. É como se a pedra perdesse suas defesas, despetrificando-se. A superfície – a última defesa – se torna película translúcida. Diante disso as sugestões são muitas. Ora parecemos estar diante de coisas há muito esquecidas, ora parecemos estar diante de uma escultura em gestação, adormecida em seu estado embrionário, pré-escultura, pré-pedra. Algo que ainda não tomou forma, amorfo – águas vivas (2). Um estado pré ou entre, suficientemente indefinido. Tal um organismo ainda indeciso entre o líquido e o sólido. Em outras palavras, algo que se recusa a ser solidamente escultura sólida. Uma outra sugestão pode emergir da associação com uma matéria orgânica também ambígua e indecisa que é a unha. E um pedaço de unha cortada lembra muito bem o crescente lunar – a própria Lua, vista daqui, não é algo opaco, luminoso, quase translúcido, que poderia ser feita de alabastro? Lunatiques, não é este o nome do trabalho? Um título que, mentindo o suficiente, pequena e poeticamente, procura evitar todo entendimento limitado e parcial que prevalece nos dias de hoje.

O próprio trabalho sabe encontrar seus caminhos, como antes soube se aproximar e enfrentar o mármore branco, clássico, austero, e “empobrecê-lo” moderna e contemporaneamente através de uma poética da lâmina e da película. É isso que acontece, creio eu, no trabalho em que uma barra de ferro atravessa as ovais em alabastro. A mentira desta pedra pode seduzir em demasia e é preciso denunciá-la, até agressivamente. Da mesma maneira percebo uma outra série de trabalhos, aparentemente tão distantes, como resultado de ações de desconfiança. Me refiro as esculturas de objetos reconhecíveis e identificáveis: o chinelo, a pá e a calçadeira, o fole e a viola. Demonstra-se aqui a quase flagrante impropriedade de representar esses objetos na permanência da pedra, de tão banais que eles são. Mas em que outro material encontrá-los senão na imagem indefinida e essencial que só o alabastro fornece para que eles nos revelem suas presenças proustianas; imersos na pedra como num limbo, reprensentando uma revivência que se realizou e ficou, tal qual é. São objetos que estão na memória como em alabastro, madeleines tridimensionais, de modo que é possível até que a memória seja feita de alabastro. Pois o Tempo está na pedra, e as coisas também, como a água em uma clepsidra, tomando todas as formas…

(1) Catalogue Sculptures, galerie Rosa Turetsky, Genève, texte de Michael Jakob
(2) C’est ainsi que le critique Rodrigo Naves a appelé les sculptures en albâtre.

Paulo Venancio Filho, 1996