MARIA-CARMEN PERLINGEIRO IMPRENSA

Jornal Le Temps, Genebra, 23 de junho de 2007
Um livro faz justiça às obras sugestivas de Maria-Carmen Perlingeiro


Aos textos pesquisados e interessantes do livro dedicado ao trabalho de Maria-Carmen Perlingeiro correspondem, às vezes, numa visão muito próxima, as belas fotografias das obras. Se essas obras, em sua maioria, testemunham o ponto de chegada - provisório - de seu trabalho, os textos seguem a trajetória percorrida pela autora das Gôtas, das Lunáticas ou da serie intitulada Um fragmento, duas figuras, série imaginada como uma homenagem ao pai. Um percurso que conduz desde as peças realizadas no Brasil ou no atelier de Evelyne Gallopin na Escola de belas-artes de Genebra, até o momento-chave da descoberta de um material fétiche, o alabastro “perfeito e ambíguo”. Até então haviam predominado o mármore e o desenho, a serigrafia, a manipulação de objetos e vegetais destinados a evocar uma idéia, uma sensação, uma intuição. A parte biográfica que Cecilia Leuenberger assina, faz mais do que seguir o fio de uma vida, ela documenta e comenta a obra (en devenir) que vai se formando.

No entanto, todas essas explicações que desenham, em côncavo o retrato da artista, se resumem e se resolvem na contemplação, differée, das peças captadas pelo olho do fotógrafo. Pilha de livros semi-transparentes cujas veias fazem levantam a alma até a superfície, aspecto aleatorio das Pétalas alinhadas no chão, com o jardim ao fundo, a aparição de uma forma banal, como que mistificada, no coração da matéria, e mais ainda a aliança do ouro e do alabastro que corre o risco de usar o precioso para insistir mais sobre a luz. Uma luz que não só banha a escultura mas brota das suas entranhas.

Se a artesania de uma obra deve permanecer dissimulada, a de Maria-Carmen Perlingeiro o faz muito bem. Como sublinha Ronaldo Brito no texto liminar, “vinte anos de trabalho pesado, árduo labor, chegam enfim a produzir uma escultura leve, quase diáfana; vinte anos de embate cotidiano com a matéria terminam quase por imaterializá-la.”