MARIA-CARMEN PERLINGEIRO CRONOLOGIA

Cria Open heart (1998), no jardim da Organização Mundial da Saúde – OMS, em Genebra, para a exposição “The edge of awareness”, organizada por Art for the World e dirigida por Adelina von Furstenberg, em comemoração aos 50 anos da OMS.

Open heart é formado por duas macieiras, 30 videiras e 17 arbustos vermelhos. As videiras de Merlot, transplantadas do vinhedo Les Perrières, em Pessy, cercam as duas macieiras, desenhando, no gramado, a forma de um coração. As uvas são também vermelhas. Open heart se inspira em um transplante cardíaco, uma verdadeira cirurgia de coração aberto. O trabalho passa a ser uma instalação permanente no parque da OMS.

Logo em seguida, três esculturas – três corações em alabastro e resina – foram apresentadas nas outras exposições “The edge of awareness” na ONU, Nova York, e no SESC Pompéia, São Paulo .



Maria-Carmen Perlingeiro brinca com diferentes significados do título da escultura Open heart – três peças de alabastro em forma de coração, cortadas ao meio no sentido horizontal e recheadas, como um sanduíche, por uma substância de aspecto gelatinoso.

Uma alusão a um coração literal e materialmente quebrado, a uma cirurgia e ao trauma da dor. No entanto, a artista sugere também que, embora endurecido, um coração dividido também se expõe à experiência e à vulnerabilidade do amor.
(Ariella Budick. “Healing art”. Newsday, 16 set. 1998).

No mesmo ano, apresenta a obra Livros na exposição “Formas transitivas”, no Gabinete de Arte Raquel Arnaud, São Paulo, com curadoria de Paulo Sérgio Duarte.

Essa fragilidade do alabastro, quando confrontada com as pedras mais resistentes, parece ser o preço pago pela incorporação da luz de que é capaz no encontro raro de opacidade e transparência. Alguém, possivelmente, já disse que nas formas de Maria-Carmen a arte se comporta como estranhos animais domésticos, queremos acariciá-los de tão familiares e atrativos. Mas também temos certeza: nunca os vimos antes. (Paulo Sérgio Duarte. Formas transitivas [catálogo]. São Paulo: Gabinete de Arte Raquel Arnaud, 1998).

(...) Sou eu quem executa as minhas esculturas: corto a pedra com martelo, raspo, dou polimento, levanto a poeira, muita poeira. Gosto desta atividade física, deste caos de barulho e poeira, desta brutalidade. Só mesmo no final do polimento, quando o trabalho já está na fase da lixa d’água, é que a pedra aparece em todo o seu esplendor, na sua mais linda translucidez, deixando fluir através de sua massa qualquer intensidade de luz ambiente. Aí reside o mágico. (Maria- Carmen em entrevista a Jaqueline Girard-Frésard, Genève XXI, 2001).

Convidada para apresentar um pré-projeto artístico para a clínica SUVA em Sion, começa a trabalhar com a colaboração do escritório de arquitetura 2BM2 – Bénédicte Montant e Verena Best-Mast, arquitetas. O projeto Point de rosée é premiado e realizado para a piscina do centro de reeducação da clínica. Point de rosée é um baixo-relevo formado de 73 “gotas d’água” em alabastro espalhadas em duas paredes de concreto aparente de 12 metros de altura cada uma.



A arte de Maria-Carmen soube aproximar dois pólos tão opostos oferecendo aos usuários desse local terapêutico um apoio estético, intelectual e moral. A obra, cujo título eloqüente de Gotas de orvalho, é centrada no conceito aquático. A água, símbolo universal da vida, compartilhada tanto pela arquitetura (a piscina) quanto pelo homem (o corpo composto quase integralmente por água) se materializa, resiste, se fixa na parede sob a forma do que é leve por excelência: a gota. Esculpidas no alabastro – tão semelhante, na espécie mineral, à carne humana – e tendo cada uma sua forma bem definida, as gotas se tornam um espelho para as pessoas que se encontram nesse local. (Michael Jakob. Point de rosée [folder]. Sion: Suva, 9 de setembro de 1999).

Ainda em 1999 o Banque Cantonale de Genève expõe uma parte de sua coleção no Musée Rath de Genebra. A escultura Pequenas mentiras, duas peças em alabastro, integra a exposição. O Musée d’Art et d’Histoire de Genebra organiza “Le geste du sculpteur”, exposição no Cabinet de Dessins, onde a artista apresenta seus desenhos em pastel realizados em Nova York entre 1982 e 1983.

Apresenta Moedas e Livros, na exposição “Change directory”, organizada por Culture et Développement na Kunsthalle de Berne, em 1999. Em agosto desse ano, mostra sua grande série de esculturas reto/verso em alabastro no Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro. Essa exposição – uma homenagem a seu pai, funcionário do Banco do Brasil na agência onde agora está o centro cultural – foi organizada e apresentada por Franklin Pedroso. Um catálogo, com texto de Ronaldo Brito, e projeto gráfico da Danowski Design (Sula Danowski e Adriana Cataldo) foi editado na ocasião. Logo a seguir a exposição será apresentada no Gabinete de Arte Raquel Arnaud, em São Paulo.

Imagino sua mesa de madeira escura, com normas da casa, memorandos, ações sob custódia, caneta tinteiro, lápis apontados, borrachas, rascunhos feitos à mão, tudo muito arrumado. Abro uma gaveta de sua escrivaninha e nela encontro um mata-borrão dos antigos com a marca de sua assinatura e o carimbo da seção onde foi talhando a dimensão que deu a seu mundo.

As esculturas representam objetos de escritório e objetos de uso pessoal como grampeador, clip para papel ou gravata. Coisas que a vida perenizou no uso diário e que vieram ocupar seu lugar na parte mais íntima de um desejo. Coisas necessárias à produção de trabalho e de vida.
(Lygia Perlingeiro. Texto na sala da exposição do Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 1999).

O alabastro, é óbvio, presta-se admiravelmente a simular a ação difusa do imaginário, com sua coloração esmaecida, um pouco remota, e suas qualidades por assim dizer epidérmicas. Ele adquire aqui, entretanto, conteúdo de verdade material: membrana sensível a dividir e unir universos – passado e presente, sonho e vigília, físico e psíquico.



(...) Maria-Carmen começa a tomar os fragmentos de alabastro como ready-made. Sem intervir em seu contorno, ela acaba transformando uma coleção de fragmentos “prontos” quase numa série pós-minimalista de elementos construtivos. (Ronaldo Brito. Maria- Carmen Perlingeiro [catálogo]. Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 1999).

No mesmo ano, recebe condecoração do governo brasileiro, Cavaleiro da Ordem do Rio Branco.