MARIA-CARMEN PERLINGEIRO CRONOLOGIA

Quando eu era criança, me diziam que para cada mentira contada nasce uma mancha branca nas unhas. Para ilustrar essas “mentirinhas” o alabastro era a matéria ideal na medida em que é cheio de manchas e tem aparência orgânica. (Maria-Carmen em entrevista a Martine Jaques-Dalcroze. Journal de Genève, 23 de junho de 1996).

Em 1996, expõe a série Pequenas mentiras na Galerie Rosa Turetsky, em Genebra, que edita um catálogo com texto de Michael Jakob.



(...) Para chegar nesta arte do que é vivo, para guardar a fragilidade do que é vivo, Maria-Carmen Perlingeiro soube escolher o mineral ideal: o alabastro. Esta pedra possui uma translucidez surpreendente e uma dureza relativa; sua transparência e suas camadas ondulantes deixam aparecer a profundidade – tudo nela parece sugerir a matéria viva sob a epiderme. Ao explorar a irregularidade das veias do alabastro, a artista imprime sua visão numa matéria tão única quanto a forma de uma unha ou de uma lágrima. (Michael Jakob. “Petits mensonges”. Sculptures [catálogo]. Genebra: Galerie Rosa Turetsky, 1996).

No mesmo ano, participa do concurso Uni Dufour em Genebra, promovido pelo Banco Darier Hentsch & Cie e organizado pela empresa START, sob a direção de Dominique Lévy e Simon Studer. O projeto, o primeiro no qual utiliza espécies vegetais, recebe o primeiro prêmio ex-aequo do Concurso Internacional Uni Dufour. O Projet végétal contou com o apoio da Fondation Moët & Chandon Suisse pour l’Art. Executado e inaugurado em 1997, ao mesmo tempo em que o trabalho do artista japonês Tatsuo Miyajima, composto de LEDs, pode ser visto dentro e fora do prédio universitário.



Para elaborar o projeto vegetal, nos persuadimos, de imediato, pela qualidade arquitetônica do prédio e pelo cuidado com a escolha do material de construção. O objetivo do projeto era valorizar o edifício por meio de duas formas de intervenção: a primeira, através do vegetal, estabelecendo um diálogo entre o prédio e o meio ambiente; a segunda, através da criação de uma esplanada integrando a praça René Payot e permitindo uma percepção mais ampla do edifício. Nossa idéia era incluir as plantas que são capazes de dialogar com a arquitetura e os espaços que contornam o prédio. Três ciprestes cuja verticalidade realça e contrasta com a forte horizontalidade do edifício foram plantados na fachada da entrada destacando, de longe, sua presença. (Maria-Carmen. “Le deux-centième”. Journal du Bicentenaire de la Banque Darier Hentsch & Cie. Genève, no 7, setembro, 1996).

O trabalho seguinte, Águas vivas, é apresentado no Gabinete de Arte Raquel Arnaud em São Paulo, com as séries muito caras a Maria-Carmen: Pequenas mentiras e Suspiros. Paulo Venâncio Filho escreveu o texto “Clepsidra” para o folheto editado na ocasião.

São objetos que estão na memória como em alabastro, madeleines tridimensionais, de modo que é possível até que a memória seja feita em alabastro. Pois o tempo está na pedra, e as coisas também, como água em uma clepsidra, tomando todas as formas. (Paulo Venâncio Filho. “Clepsidra”, no folder Águas vivas. São Paulo: Gabinete de Arte Raquel Arnaud, setembro 1996).

Apreciei suas esculturas, tanto quanto o pode permitir a imagem fotográfica, e surpreendeu-me como consegue ir além das falsas facilidades proporcionadas pela riqueza visual e táctil do alabastro, criando peças que do material retêm a translucidez e as variações cromáticas, mas em que essas servem a pura forma. (José Saramago em carta a Maria-Carmen em 19 de abril de 1996).

Em 1997, é convidada por Adelina von Furstenberg, diretora de Art for the World, a apresentar as Lunáticas, na Madrasa Ibn Youssef, em Marrakech, por ocasião da exposição “Méditations”. Cada artista mostrava seu trabalho numa célula iluminada apenas pela luz natural e as cinco luas em alabastro de Maria-Carmen ficavam pousadas no chão, umas sobre as outras.



E um pedaço de unha cortada lembra muito bem o crescente lunar – a própria Lua, vista daqui, não é algo opaco, luminoso, quase translúcido, que poderia ser feita de alabastro? Lunatiques, não é este o nome do trabalho? (Paulo Venâncio Filho. “Clepsidra”, no folder Águas vivas. São Paulo: Gabinete de Arte Raquel Arnaud, setembro 1996).